• A corrida tem cada vez mais adeptos ao redor do mundo
  • É importante saber qual a maior incidência de lesão em cada esporte
  • Programas de prevenção são elaborados de acordo com as lesões que mais ocorrem em cada esporte

 

Introdução

A corrida é um esporte que tem ganhado cada vez mais adeptos ao redor do mundo, pois é um exercício físico que pode se realizar em qualquer lugar e sem qualquer tipo de treinamento prévio.  Com o crescimento da prática também aumenta o número de lesões relacionadas a esse esporte, principalmente em iniciantes, e, por isso, é importante o conhecimento epidemiológico das mesmas para atuar de forma mais eficaz nos programas de prevenção.

Omsk, Russia – September 20, 2015: three leaders of the marathon running along the embankment of the Irtysh river during Siberian international marathon Fonte:https://worldsmarathons.com/article/why-are-east-african-runners-so-dominant-

As lesões esportivas em geral podem ser traumáticas (ou agudas) ou por overuse (sobrecarga e crônicas). A lesão traumática é causada por forças de grande magnitude que podem ser com contato (um carrinho ou um chute desferido pelo adversário) ou sem contato (uma torção de tornozelo ou joelho por pisar em uma superfície irregular). Uma lesão por overuse é aquela que ocorre devido a microtraumas repetidos ao longo do tempo. Um atleta com uma lesão por overuse muitas vezes pode continuar treinando, porém, o seu rendimento acaba por ser prejudicado ao longo do tempo.

Segundo alguns pesquisadores, a lesão relacionada à corrida é definida como qualquer queixa músculo esquelética nos membros inferiores ou coluna vertebral baixa (região lombar e torácica baixa), causada pela corrida, que restrinja a sua realização convencional (distância, duração, pace (cadência) ou frequência alterados) por pelo menos 1 semana.

A prevenção no esporte não significa que se evitará completamente que aconteçam as lesões, mas sim que a sua incidência será cada vez menor e as consequências cada vez mais brandas. Como corredor de rua já tive algumas lesões e sei o quanto é ruim deixar de fazer aquilo que gostamos, mas se você pratica corrida, este artigo vai te ajudar a conhecer um pouco mais sobre as principais lesões na corrida e seus fatores de risco.

 

Incidência de lesões na corrida

Cada esporte tem sua exigência física particular e por isso suas lesões específicas, por exemplo, sabemos que no futebol a coxa e o joelho são os locais com maiores incidências de lesões, sendo as lesões musculares na coxa (principalmente isquiotibiais, parte posterior da coxa) as mais frequentes. Sabemos também que no futebol americano há uma grande incidência de concussões (Leia o artigo sobre concussão aqui) assim como nas artes marciais.

Já na corrida, os locais com maior número de lesões são o joelho, tornozelo e tendão de Aquiles, sendo a síndrome da banda iliotibial (joelho de corredor), dor patelo-femoral (disfunção na região da rótula), as dores na região medial da tíbia (dores na canela ou canelite), lesões de tendão de Aquiles e  de panturrilha as mais frequentes.

A incidência de lesões na corrida varia de 19-79%, essa grande variação se deve ao fato de que muitas vezes os estudos/autores usam diferentes definições de lesões relacionadas a corrida. Segundo um estudo feito na 18ª maratona de Ljubljana na Eslovênia, 1 em cada 2 corredores já sofreu uma lesão relacionada a corrida e 1 em cada 3 teve uma lesão leve (até 2 semanas de recuperação) na temporada anterior à prova (12 meses anteriores).

 

Fatores de risco

Os autores que estudam as lesões relacionadas a corrida costumam dividir os fatores de risco em 3 grupos ou categorias:

  • Fatores pessoais; sexo, idade, altura, peso, índice de massa corpórea (IMC), fatores genéticos, etc.
  • Fatores relacionados ao treino ou à corrida; Frequência, duração, velocidade, experiência do corredor, tipo de superfície, tipo de calçado, etc.
  • Fatores relacionados à saúde e ao estilo de vida; fumo, morbidades, lesões prévias, etc.

Segundo os estudos sobre o assunto os fatores de risco para lesão relacionada à corrida com maior índice de evidência são; sexo masculino, pouca experiência no esporte, lesão prévia (últimos 12 meses) e um IMC (Índice de Massa Corpórea) elevado (acima de 25kg/m2 – sobrepeso ou obeso). Alguns outros estudos ainda encontraram relação entre lesões na perna com a idade avançada e, também, com a corrida minimalista (descalço).

Os “erros” de treinamento também são considerados fatores de risco para lesões. Um desses “erros” é o aumento abrupto da carga de treinamento. Existe até uma “regra dos 10%”, cuja premissa é que não se aumente mais que 10% da sua distância de treinos em um período curto (semanal ou quinzenal). No nosso artigo sobre carga de treinos falamos um pouco sobre o tema (Leia o artigo sobre workload aqui). Um estudo sobre corrida quis verificar se a regra dos 10% realmente era válida e estudou 3 grupos distintos; um grupo onde o aumento da distância era de até 10%, outro com um aumento entre 10-30% e um terceiro onde o aumento foi de mais de 30%. Os autores encontraram que aqueles que aumentaram a distância mais de 30% num período de 2 semanas tinham um risco maior de sofrer alguma lesão relacionada a corrida. A diferença entre os outros 2 grupos não foi significante. Isso nos mostra o quanto é importante estar bem orientado de como e quanto treinar para não sofrer lesões.

 

Prevenção

Existem alguns fatores de risco que não podem ser modificados como por exemplo o sexo, a idade ou as lesões prévias, porém os programas de prevenção de lesão focam principalmente nos fatores de risco que podemos mudar, por exemplo; não podemos alterar o fato de que o atleta teve uma tendinite de Aquiles ou uma lesão de panturrilha no ano passado, mas podemos realizar um programa de prevenção baseado nessa informação e assim sermos mais eficazes em minimizar futuras lesões.

Em contrapartida podemos modificar fatores de risco como a pouca experiência no esporte e o sobrepeso, com a orientação de preparadores físicos e nutricionistas para que o esporte evolua gradualmente de acordo com as limitações de cada um. Os “erros” de treinamento também podem ser minimizados seguindo-se um plano bem elaborado por um profissional capacitado.

A mensagem que fica é que se você é corredor, homem, com pouca experiência, com lesão nos últimos 12 meses, com IMC acima de 25kg/m2 e não tem um plano bem elaborado de treinamentos, segundo a literatura, existe um risco maior de lesões nesse esporte, e por isso deve consultar seu médico, fisioterapeuta ou preparador físico para começar os exercícios preventivos o mais rápido possível.

Eu por exemplo corro há mais ou menos 10 anos e a lesão que mais me incomodou durante esse período foi a tendinite no tendão de Aquiles tanto na perna direita como na esquerda, mas que depois de alguns ajustes nos treinos e no material que eu utilizava hoje já não me incomodam em nada.

Se você leitor é corredor e quer compartilhar conosco quais foram suas lesões escreva nos comentários abaixo, quem sabe um dia não fazemos um artigo 😉

Referências:

1 – van der Worp, M. P; ten Haaf, D. S. M; et al.. Injuries in Runners; A ystematic review on risk factors and sex differences. PLOES one. 2015
2 – Vitez, L.; Zupet, P.; et al.. Running Injuries in the participants of Ljubljana Marathon. 2017
3 – Nielsen, R. O.; Parner, E.T.; et al.. Excessive Progression in Weekly Running Distance and Risk of Running-Related Injuries: An Association which Varies According to Type of Injury. JOSPT. 2014

Corredor de rua e praticante de artes marciais.

Fisioterapeuta, especialista em Fisioterapia Esportiva.
Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente.
Trabalha junto à equipe do FC Lokomotiv Moscow, em Moscou, Rússia.

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