• Algumas organizações não permitem que os atletas ouçam música durante as provas.
  • A música atua de várias formas melhorando a performance dos atletas.
  • A WADA não tem um posicionamento oficial sobre o uso de música.

 

Introdução

Olhar compenetrado, cara de mal, fone de ouvido e um capuz cobrindo a sua cabeça. Difícil alguém não se lembrar da cena do Michael Phelps se concentrando antes de sua prova nas olimpíadas do Rio de Janeiro.

Michael Phelps antes da prova. Fonte: imagem sem copyright

 

Muitos atletas gostam de ouvir música durante os treinos e provas, mas será que esta música pode melhorar o desempenho do atleta? Existe algum tipo de música ou ritmo que pode ser mais benéfico?

 

Competições

A utilização de música pelos atletas antes e durante a competição pode ou não ser permitida, dependerá da organização do evento. A maioria das corridas de rua permite o uso de fones de ouvido durante a prova, os jogos de basquete da NBA têm como tradição o uso de música para incentivar o ataque ou a defesa do time da casa, já a organização do triathlon Ironman proíbe a utilização de qualquer tipo de aparelho de reprodução musical. Desta forma, é importante que o atleta saiba se poderá ou não ouvir música durante a competição, para que seu treino seja o mais semelhante possível à prova.

Apesar de mais antigo, este vídeo ilustra bem a utilização da música nos jogos de basquete.

 

Ciência por trás da música

E o que os estudos mostram em relação à utilização de música e o rendimento esportivo?

Os estudos dividem a utilização de música em antes, durante e após os exercícios físicos. Alguns estudos demonstram que ouvir música antes da atividade física pode ajudar a melhorar o rendimento em atividades de explosão, misto entre aeróbico e anaeróbico (sprints, tiros de natação etc). A música, apesar de melhorar a performance, não demonstrou ser eficiente em aumentar a força máxima dos atletas.

A música durante a atividade física demonstrou melhora do rendimento durante as atividades anaeróbicas e aeróbicas de alguns atletas. A música parece atuar causando: dissociação, aumento do vigor, sincronização, aquisição de capacidades motoras e obtenção do flow.

  • Dissociação: em atividades submáximas a música ajuda a concentração, com isso diminui a sensação de fadiga.
  • Aumento do vigor: a música tem efeito emocional e fisiológico, alterando assim a excitação e o vigor do atleta. Pode alterar o padrão da respiração para uma respiração mais profunda e levar ao aumento da oxigenação sanguínea. Além disso ajuda o atleta a focar na prova e com isso regular a ansiedade pré-competição.
  • Sincronização: A música também pode ser utilizada para marcar a cadência e o ritmo na corrida, ajudando o atleta a evitar o sobe e desce no ritmo e na cadência, que pode eventualmente levar à fadiga e à “quebra”.
  • Aquisição de capacidades motoras: Esta parte da música está principalmente relacionada à aquisição de novos movimentos. É a utilização da música nas pré-escolas e escolas durante as aulas para que as crianças aprendam novos movimentos e refinem os movimentos já aprendidos.
  • Obtenção do Flow: Flow é o termo utilizado para descrever o momento em que uma pessoa foca toda a sua motivação, atenção física e psíquica em uma atividade específica. Em diferentes estudos pesquisadores demonstraram que a música é capaz de afetar a emoção e a cognição dos atletas a ponto de melhorar sua performance durante a atividade física.

Neste excelente TED Talk a nadadora Diana Nyad fala sobre como ela memorizou várias músicas e que ficava “ouvindo” estas músicas enquanto tentava fazer a travessia a nado de Cuba para os Flórida.

 

Já a música após a atividade física pode ser utilizada para ajudar a relaxar, a diminuir a frequência cardíaca e a frequência respiratória.

 

Qual música ouvir?

Alguns estudos mostram que para obter o melhor rendimento, a música ouvida deve ter o ritmo adequado ao ritmo do exercício do atleta e, também, deve despertar alguma emoção no atleta. Seria mais ou menos como um atleta que cresceu nos anos 80 ouvir a música “Eye of the Tiger” do filme Rocky enquanto corre ou sobe escadas! Sem dúvida seu rendimento será melhor do que ao ouvir “Cabecinha no ombro” do Almir Sater (independente de gostar ou não do gênero musical). A música que desperta emoção positiva ajuda o atleta a focar mais no exercício e a ter melhor rendimento.

 

Podemos utilizar algo além da música?

Sim, um estudo comparou a utilização de música, música + vídeo, música + vídeo + palavras motivacionais e um grupo controle, sem nenhum estímulo, antes de uma atividade física. A conclusão do estudo é que utilizar música + vídeo + palavras motivacionais foi capaz de melhorar o rendimento dos atletas em um teste de exercício anaeróbico, a segunda condição que mais ajudou os atletas foi a utilização da música isoladamente. Seriam os Hakas das nações do Pacífico uma mistura destas condições?

 

WADA

E o que a WADA – Agência Mundial Anti-Doping (World Anti-Doping Agency) diz a respeito da utilização de música por atletas?

A WADA não se posiciona oficialmente sobre a utilização de música pelos atletas. Mas para que um método ou uma substância faça parte da lista de itens proibidos pela WADA, ela deve ter dois dos seguintes critérios:

  • Ter o potencial de melhorar a performance esportiva.
  • Representar um risco ou um potencial risco à saúde do atleta.
  • Violar o Espírito Esportivo (a definição de Espírito Esportivo está contida no Código da WADA).

A utilização de música, vídeos, meditação e outras técnicas não representa risco, nem viola o Espírito Esportivo, por esta razão não entram na lista de itens proibidos pela WADA. Este é o link para a lista de substâncias proibidas de 2019.

Conclusão

A utilização de música não é considerada Doping e comprovadamente melhora a performance dos atletas. Saiba se a competição da qual irá participar permite ou não a utilização de música. A música deve ser escolhida pelo atleta, dentro de critérios específicos para a atividade a ser desenvolvida. Quando associada a palavras motivacionais e a vídeo, a música parece ter um efeito ainda melhor. E lembre-se, acima de tudo a música ajuda o atleta a se divertir e a focar mais na atividade a ser desenvolvida. Então, ligue o som e curta o seu treino!

Referências:

  • https://www.wada-ama.org/en
  • Bishop, D. T., Karageorghis, C. I., & Loizou, G. A grounded theory of young tennis players’ use of music to manipulate emotional state. Journal of Sport & Exercise Psychology 2007, 29, 584–607
  • Karageorghis, C. I., & Deeth, I. P. Effects of motivational and oudeterous asynchronous music on perceptions of flow [Abstract]. Journal of Sports Sciences 2002, 20, 66–67
  • Stork MJ, Kwan MY, Gibala MJ, Martin Ginis KA. Music enhances performance and perceived enjoyment of sprint interval exercise. Med Sci Sports 2015 May;47(5):1052-60
  • Karageorghis CI, Priest DL. Music in the exercise domain: a review and synthesis (Part I). Int Rev Sport Exerc Psychol. 2012 Mar;5(1):44-66. Epub 2011 Dec 7.

Freediver, velejador, triatleta e apaixonado pelo mar.

Médico especialista em medicina desportiva, ortopedia & traumatologia e cirurgia de joelho.
Trabalha com foco na melhora do rendimento do atleta e na prevenção de lesões.

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