• A dor nas costas (lombalgia) tem uma elevada incidência na população mundial
  • 8 em cada 10 pessoas sentirão uma forte crise de dor lombar na vida
  • Ao contrário do que se imaginava há algum tempo, o exercício e o movimento são indicados nas dores nas costas e não o repouso

 

            A coluna vertebral possui 3 funções básicas: uma estática (postura), uma dinâmica (movimentos em geral) e uma protetora (para a medula espinhal). A dor lombar (lombalgia) constitui uma causa frequente de morbidade e incapacidade, sendo uma das principais queixas médicas ao redor do mundo. Acredita-se que 8 em cada 10 pessoas sofreu ou sofrerá de uma crise de forte lombalgia.

Figura 1 – Coluna vertebral e suas divisões
Fonte: http://www.secmesp.org.br/sms/voce-ja-pensou-como-e-sua-coluna-vertebral-e-qual-sua-funcao.html

 

Entre os problemas de coluna em geral, aqueles relacionados à região lombar são os mais frequentes. Segundo estatísticas internacionais, a dor lombar é responsável por 1% das baixas laborais, representando baixa na produtividade do paciente e elevados custos para o governo.

 

Existem essencialmente 4 elementos anatômicos que podem ser fonte de dores na região lombar:

  1. O disco intervertebral
  2. As facetas articulares posteriores
  3. O ligamento interespinhoso
  4. Os músculos paravertebrais

Figura 2 – Coluna vertebral – região lombar
Fonte: Netter, 2000

Porém as queixas na região lombar não são tão simples de avaliar e consequentemente tratar, pois além dos elementos anatômicos (estruturais ou biomecânicos) acima citados as dores lombares tem forte associação com fatores físicos ou de treinamento (carga de treinamentos e nível de condicionamento físico), psicológicos (cognitivos e emocionais), sociais (socioeconômicos, culturais, ambiente de trabalho e doméstico e stress), estilo de vida (sono e nível de atividade), comorbidades (saúde mental, obesidade) e fatores não modificáveis (genéticos, sexo, idade). Por isso a lombalgia atualmente é considerada uma desordem ou disfunção multidimensional.

 

 

 

Nossa coluna vertebral é composta por um conjunto de vértebras sobrepostas, entre cada uma dessas vértebras se encontra o disco intervertebral. Este disco é uma estrutura avascularizada (sem vasos sanguíneos) com um papel importantíssimo na mobilidade e estabilidade da coluna vertebral. A nutrição ou hidratação do disco é feita através de compressão e descompressão pelo mecanismo de difusão.

Figura 3 – Coluna e disco intervertebral
Fonte: http://doutordascadeiras.com.br/o-disco-intervertebral-e-os-movimentos-do-tronco-na-posicao-sentada/

Como vimos no artigo Corrida saudável (clique aqui para ler), a corrida, ao contrário do que se pensava, é benéfica para as articulações do quadril e joelho, mas seria a corrida também boa para nossa coluna? A resposta é sim. Um estudo recente publicado na revista Nature nos permite afirmar isso. Com o título de “Running exercise strengthens the intervertebral disc” (A corrida fortalece o disco intervertebral), os autores afirmam que a corrida ajuda a fortalecer o disco intervertebral e com isso deixá-lo mais saudável.

A hipótese dos autores é de que pessoas que praticam corrida de forma regular vão apresentar um disco intervertebral de “melhor qualidade” quando comparados com pessoas saudáveis, sem história de problemas lombares, mas fisicamente inativos. As comparações foram feitas através de imagens de ressonância nuclear magnética. Os autores também procuraram saber se há uma dose mais efetiva quanto à atividade física ou corrida para “fortalecer” os discos intervertebrais.

 

 

Os discos intervertebrais avaliados no estudo foram da região lombar da coluna vertebral por serem geralmente os mais suscetíveis à hérnias ou degenerações. Os autores avaliaram 79 participantes, com idade entre 25-35 anos, que foram divididos em 3 grupos. Um grupo de corredores de curta distância ou joggers (20-40km por semana), um grupo de corredores de longas distâncias (mais que 50km por semana) e um grupo que não pratica esporte ou atividade física regular (menos que 150 minutos por semana).

Todos os participantes dos 3 grupos praticavam suas atividades (corrida) ou eram inativos pelos últimos 5 anos, tendo em vista que os autores não sabiam como se comporta o fortalecimento do disco intervertebral (quanto tempo leva para ocorrer todo o processo).

Os resultados mostraram que os grupos de corrida (joggers e longa distância) apresentavam discos mais saudáveis, ou seja, mais hidratados e com maior concentração de glicosaminoglicanos, que o grupo sedentário. Os autores também encontraram que a velocidade em que o disco intervertebral responde melhor à atividade seria de 2m/s (7,2 km/h), onde valores muito abaixo ou muito acima deste não teriam os mesmos efeitos positivos.

Uma das limitações do estudo segundo os autores foi que diversos fatores que podem influenciar no metabolismo do disco intervertebral dos participantes não foram analisados no estudo, como diferenças na: função muscular, nutrição, sistema hormonal (hormônio do crescimento, citocinas, hormônios do stress) e outros efeitos indiretos.

Assim como os músculos e ossos que dependem de carga para estarem fortes e saudáveis, este estudo abordou de forma simples e eficaz outra estrutura que também temos que fortalecer, o nosso disco intervertebral. Ao contrário do que se afirmava há anos atrás, de que dores lombares deveriam ser tratadas somente com repouso e medicamentos, hoje se pode afirmar com base em vários artigos que essas condutas não são mais as únicas a serem indicadas para tal patologia. Lembrem-se sempre, antes de começar qualquer esporte ou atividade física converse com seu médico, fisioterapeuta ou preparador físico para realiza-lo da melhor forma possível.

 

Referencias Bibliográficas:

  1. Belavy, D; Quittner, M; Ridgers, N; et al.. Running exercise strengthens the intervertebral disc. Nature. 2017
  2. O’Sullivan, P; Carneiro, J; O’Keffee, M; O’Sullivan, K. Unraveling the complexity of low back pain. JOSPT. 2016
  3. Riccard, F; Salle, JL. Tratado de Osteopatia. 4ª edição. 2014.

Corredor de rua, apaixonado por artes marciais e futebol.

Fisioterapeuta, especialista em Fisioterapia Esportiva.
Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente.
Trabalha junto à equipe do FC Lokomotiv Moscow, em Moscou, Rússia.

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