• A atividade física na infância é essencial tanto para o desenvolvimento neuropsicomotor, como para a prevenção de doenças cardiovasculares.
  • O início do esporte deve ser incentivado precocemente, tomando sempre as devidas precauções e respeitando as aptidões e gostos individuais.
  • O esporte deve ser encarado como agente promotor de saúde na infância, sendo a área competitiva uma opção e não uma obrigação.

Quadro Geral

            Quando se pensa em esporte na infância geralmente o pensamento inicial é na formação de um atleta. Quanto antes se inicia o treinamento, mais especializado será e mais efetivo no mundo competitivo.

            Porém, observando o cenário mundial onde apenas uma ínfima porcentagem da população se engaja em nível profissional no desporto, instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) se desdobram em esforços de incentivar a prática de atividade física na infância e adolescência como estratégia de promoção de saúde em detrimento do aspecto competitivo. Isso se dá devido ao aumento importante nos últimos anos dos níveis de obesidade infantil, já considerada como uma pandemia e merecendo a nossa maior atenção.

            Jovens obesos apresentam maior probabilidade de desenvolver fatores de risco cardiometabólicos, diabetes, hipertensão, doenças do fígado, asma, problemas de saúde bucal, ansiedade, depressão, alterações ortopédicas e articulares, transtornos de déficit de atenção, hiperatividade, problemas de sono e percepção negativa de qualidade de vida. A obesidade durante a infância e adolescência tem consequências adversas sobre a mortalidade precoce e morbidade física na idade adulta a curto e longo prazo.

            Tendo esse panorama em mãos devemos realizar um esforço conjunto englobando pais, profissionais de saúde e educadores para orientar, incentivar e prevenir possíveis excessos nesse início de jornada. Para tanto, são necessárias algumas definições:

  • Atividade física: “Qualquer movimento como resultado de contração muscular esquelética que aumente o gasto energético acima do repouso”
  • Esporte: “O Esporte, como conceito, é considerado uma atividade metódica e regular, que associa resultados concretos referentes à anatomia dos gestos e à mobilidade dos indivíduos. “
  • Esporte de alto rendimento: “ Esta divisão do esporte salta para a esfera da competição, com objetivo de vitória e alcance do máximo potencial do atleta.”

Iniciando a prática

            Observando as orientações da OMS, SBP e Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, o objetivo principal da prescrição de atividade física na criança e no adolescente é criar o hábito e o interesse pela atividade física, e não treinar visando desempenho. Dessa forma, deve-se priorizar a inclusão da atividade física no cotidiano e valorizar a educação física escolar que estimule a prática para toda a vida, de forma agradável e prazerosa, integrando as crianças e não discriminando os menos aptos.

            Para que isso seja alcançado, alguns cuidados devem ser tomados, como por exemplo:

  • Desenvolvimento Motor: “Alguns tipos de exercício demandam certos níveis de habilidade adquiridos gradualmente conforme o crescimento natural da criança, sendo importante então adequar a atividade indicada ao momento da criança, tanto para evitar lesões quanto para evitar frustração pelo insucesso.”
  • Maturidade sexual: “Principalmente nas meninas, onde uma carga de exercícios aumentada pode se traduzir num atraso do desenvolvimento sexual, por alterações nutricionais e baixo percentil de gordura corporal, é preciso avaliação do estágio de Tanner como limitante da carga de exercício. O treinamento com peso e de fortalecimento muscular também deve respeitar este fator, pois mesmo em crianças menores que ainda estão em fase de crescimento rápido, a prática da musculação pode aumentar o risco de desenvolver lesões musculares, na coluna vertebral, placa de crescimento e hipertensão arterial, lembrando que não existe contra-indicação formal à musculação, quando bem orientada mesmo em crianças menores.”
  • Doenças e/ou déficits limitantes: “A inclusão de crianças e adolescentes especiais na prática desportiva é um tema recorrente e bem difundido nos dias de hoje. Ela ganhou maior importância após a II guerra mundial, como forma de inclusão e reabilitação, sendo realizada a primeira paraolimpíada em 1948. Isso apenas demonstra que existe a necessidade de adequação e orientação especial, mas nunca privação. Outras condições como epilepsia, cardiopatias e doença falciforme, também possuem indicações e orientações específicas já discutidas em literatura, sendo importante, portanto, identificá-las na consulta pré-participação”.
  • Aptidão individual: “ Na medida do possível, a criança deve ter oportunidade de escolher a modalidade desejada, tanto para o reforço de autonomia quanto para o próprio estímulo da prática. Estima-se que aos 15 anos, 75% das crianças que participaram de esportes abandonaram essa prática. Isso sugere que a organização dos programas de atividade física e esportes objetiva mais a expectativa dos pais e adultos do que o desenvolvimento saudável e lúdico da criança”.

            Em linhas gerais podemos pensar em orientações práticas respeitando as faixas etárias com exemplos que podem ser extrapolados para os mais diversos tipos de atividade física e esportes.

Crianças de 0 a 2 anos de idade

  1. Bebês devem ser incentivados a serem ativos, mesmo que por curtos períodos, várias vezes ao dia.
  2. Bebês que ainda não começaram a se arrastar/engatinhar devem ser encorajados a serem fisicamente ativos alcançando, segurando, puxando e empurrando, movendo a cabeça, corpo e membros durante as rotinas diárias e durante atividades supervisionadas no chão, incluindo tempo em decúbito frontal.
  3. Bebês que conseguem se arrastar/engatinhar devem ser encorajados a serem tão ativos quanto possível em um ambiente seguro, supervisionado e estimulante.
  4. Crianças que conseguem andar sozinhas devem ser fisicamente ativas todos os dias durante pelo menos 180 minutos em atividades que podem ser fracionadas durante o dia e ocorrerem em ambientes fechados ou ao ar livre. Os 180 minutos podem incluir atividades leves, como ficar de pé, movendo-se, rolando e brincando, além de atividades mais energéticas como saltar, pular e correr.
  5. Crianças dessa faixa etária não devem permanecer em comportamentos sedentários por longos períodos, exceto quando estão dormindo. O comportamento sedentário representa o tempo em que as crianças estão fazendo muito pouco movimento físico, como passear de carro ou ficar no carrinho de bebê. Permanecer em comportamentos sedentários por longos períodos não é benéfico para a saúde e para o desenvolvimento da criança e deve ser evitado.
  6. Até os dois anos de vida recomenda-se que o tempo de tela (TV, tablet, celular, jogos eletrônicos) seja ZERO.

Crianças dos 2 aos 5 anos

** Nesta etapa a habilidade motora é limitada e as reações de equilíbrio não estão definidas. Em geral há uma dificuldade de atenção seletiva e o aprendizado se dá pela mecânica de erros e acertos. Também é difícil acompanhar objetos em movimento e avaliar velocidades. Então o ideal é explorar o aspecto lúdico sem competitividade para treinamento de habilidades básicas.**

  1. Crianças dessa faixa etária devem acumular pelo menos 180 minutos de atividade física de qualquer intensidade distribuída ao longo do dia, incluindo uma variedade de atividades em diferentes ambientes e que desenvolvam a coordenação motora.
  2. Brincadeiras ativas, andar de bicicleta, atividades na água, jogos de perseguir e jogos com bola são as melhores maneiras para essa faixa etária se movimentar.
  3. A partir dos três anos de idade atividades físicas estruturadas, como natação, danças, lutas, esportes coletivos, entre outras, também podem ser paulatinamente incluídas.
  4. Comportamentos sedentários devem ser fortemente evitados e recomenda-se que o tempo de tela seja limitado em 2 horas por dia, sendo que quanto menos tempo gasto frente às telas será melhor.

Crianças dos 6 aos 9 anos

“ Nesta faixa etária melhoram o equilíbrio e o tempo de reação, assim como memória e acompanhamento do movimento, mesmo que o direcionamento ainda esteja um pouco prejudicado. Orientar esportes com regras flexíveis, que possam ser praticados nas horas livres e com poucas instruções”

Crianças dos 10 aos 12 anos

“ A visão já tem o padrão adulto, apresentando melhora do equilíbrio e da habilidade motora. Com o potencial para desenvolver estratégias e táticas mais desenvolvido, é interessante o estímulo a esportes coletivos. Outros esportes individuais devem respeitar o nível de maturação similar entre os participantes, principalmente porque a velocidade de desenvolvimento é como sabemos diferenciada, e competir em parâmetros diferentes pode ser desestimulante para a criança e adolescente. Esportes com menor ênfase no tamanho físico ou com adequação por peso/idade podem ser opções viáveis.

  1. Crianças e adolescentes dessas faixas etárias devem acumular pelo menos 60 minutos diários de atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa. Atividades de intensidade moderada a vigorosa são aquelas que fazem a respiração acelerar e o coração bater mais rápido, tais como pedalar, nadar, brincar em um playground, correr, saltar e outras atividades que tenham, no mínimo, a intensidade de uma caminhada.
  2. A prática de atividade física superior a 60 minutos fornece inúmeros benefícios adicionais para a saúde.
  3. Atividades de intensidade vigorosa, incluindo aquelas que são capazes de fortalecer músculos e ossos, devem ser realizadas em, pelo menos, três dias por semana. Para a população pediátrica essas atividades podem ser não estruturadas, como brincadeiras que incluem saltos, atividades de empurrar, puxar e apoiando/suportando o peso corporal.
  4. Atividades de flexibilidade envolvendo os principais movimentos articulares devem ser realizadas pelo menos três vezes por semana.
  5. Crianças e adolescentes devem ser encorajados a participar de uma variedade de atividades físicas agradáveis e seguras que contribuam para o desenvolvimento natural, tais como, caminhadas, andar de bicicleta, praticar esportes diversos, se envolver em jogos e brincadeiras tradicionais da comunidade em que estão inseridas. Estas atividades melhoram os aspectos físico, emocional e social.
  6. Assim como para crianças de 3 a 5 anos de idade, comportamentos sedentários devem ser evitados e recomenda-se que o tempo de tela seja limitado em 2 horas por dia, sendo que quanto menos tempo gasto frente às telas será melhor. Porém, este limite não deve levar em consideração o tempo destinado ao uso de computador para realização de tarefas escolares.

Conclusões

  • Não existe idade certa nem esporte correto para iniciar a prática de atividade física.
  • Errado é ficar parado!
  • Temos que incentivar e gerar um ambiente propício para que a prática não seja descontinuada e levada à vida adulta, prevenindo o sedentarismo e complicações como doenças cardiovasculares e degenerativas osteomusculares.
  • Depende da integração de pais, educadores e profissionais de saúde um futuro mais saudável para os pequenos que amanhã serão a força motora do nosso mundo.

Referências

  1. Akkari M, Resende VR, Santili C. A Criança eo Esporte. Tratado de Pediatria: Sociedade Brasileira de Pediatria. Barueri 3.ed. ed. Manole, 2014. p.3095-3100
  2. Sociedade Brasileira de Pediatria. Grupo de Trabalho em Pediatria e Medicina Desportiva. Esporte Como Instrumento de Promoção da Saúde. SBP; 2001. Disponível em https://www. sbp.com.br/departamentos-cientifi cos/ acesso em 20/09/2018
  3. Centers for Disease Control and Prevention. 2008 Physical Activity Guidelines for Americans. Disponível em https://health.gov/paguidelines/pdf/paguide.pdf acessado em 20 de setembro de 2018.

Dr. Luís F. M. Mendes

Judoca amador faixa preta.

Médico Pediatra especialista em infectologia pediátrica e Preceptor no Pronto atendimento pediátrico do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná.

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