• A saliva é um fator determinante para que os dentes e tecidos adjacentes estejam protegidos.
  • O carbo-gel e os repositores de eletrólitos podem alterar o pH bucal.
  • Uma dentre várias dicas é bochechar vigorosamente após a ingestão do carbo-gel.

 

Falar em alto rendimento esportivo sem falar em fisiologia é como simplesmente parar de se exercitar no início do aquecimento. Praticar atividades físicas, mesmo que recreativas e esporádicas, sem uma pré-avaliação profissional é hábito comum para grande parte da população mundial. Os atletas de final de semana têm proporcionalmente mais lesões que os atletas profissionais e amadores avançados. Isto acontece pelo fato do atleta profissional passar por um protocolo de avaliação física e hematológica com grande frequência, gerando comparações de dados para ajustes de treinamento físico, alimentar e fisiológico. Tudo para alcançar um melhor rendimento, brigar pela ponta e sonhar com a medalha de primeiro lugar. Dentro desse espectro, a condição de saúde bucal está intimamente ligada à lesão ou recuperação muscular pela presença de patógenos circulantes no sangue.

A saliva é um fator determinante para que os dentes e tecidos adjacentes estejam protegidos. Para ficar mais simples de entender, durante uma corrida de alta intensidade o fluxo salivar diminui drasticamente, a sudorese aumenta e a desidratação começa a agir. Consequentemente, o atleta tem a ação salivar prejudicada por alteração na sua concentração e composição, e ainda sofre um aumento da ação bacteriana. Além disto, a ocorrência de refluxos gástricos, mais comum nos períodos de adaptação de treinos mais intensos e temporadas de campeonatos, interfere na ação ácida sobre as estruturas dentais e a diminuição do volume hídrico corpóreo.

Em um estudo de Segura et al., foram correlacionados a concentração do lactato salivar e do lactato sanguíneo. Os autores concluíram que em exercícios de endurance ocorrem limitações do metabolismo aeróbico, sendo necessário o aproveitamento da glicólise em condições anaeróbicas, causando aumento de lactato sanguíneo e salivar. A alta concentração de lactato circulante é tudo que não se quer durante a prática esportiva, pois causam dores musculares e fazem com que muitos abandonem a competição ou treinamento antes do seu final.

Para repor os eletrólitos perdidos e aumentar a quantidade de combustível para continuar realizando a atividade, isotônicos e géis de carboidratos são utilizados em períodos intervalados, podendo ser ingeridos 250ml eletrólitos (em meio líquido) a cada 15 minutos e a reposição energética a 45 minutos com sachê de gel manipulado ou industrializado, ou outro tipo indicado pelo nutricionista da equipe multidisciplinar.

Bebidas esportivas
Fonte – Steve Humphreys

Infelizmente existe um lado obscuro nesta necessidade de reabastecimento. A grande maioria destes repositores são muito ácidos. O pH muito baixo em contato com a cavidade bucal gera erosão ácida, compromete as propriedades salivares, desfavorece a integridade da mucosa bucal, altera a estrutura do esmalte dentário, afeta as defesas intrínsecas contra bactérias oportunistas e seus sub-produtos de metabolismo. Como consequência, acontece perda da estrutura dental sadia, gerando doença cárie, perda da anatomia dental, tão importante para o processo de mastigação e guias de desoclusão dos dentes, além de irritação de mucosa bucal e surgimento de aftas e inflamações primárias na gengiva.

Para corrigir estes efeitos danosos no esmalte dental, o atleta obriga-se a fazer tratamento odontológico restaurador, que por sua vez, faz com que mais placa bacteriana seja retida, quando comparado com estrutura dental hígida.  Junto com a placa bacteriana aderida, surgem as inflamações gengivais e de estrutura de suporte dos dentes, que por sua vez, liberam toxinas na corrente sanguínea, afetando a saúde do atleta como um todo.

Este é um dos motivos pelo qual atletas de alto rendimento apresentam maior prevalência de doenças odontogênicas. Em um outro estudo realizado com 302 atletas olímpicos em 2012, Needleman, et al. concluíram que as doenças gengivais mostraram prevalência elevada (15% periodontite e 76% gengivite) em sua amostra. Assim como a doença cárie (55% dos atletas) e erosão de tecido dental (45%), a evolução da doença periodontal pode resultar na perda dos dentes, causando uma evidente repercussão negativa na qualidade de vida do indivíduo.

Aspectos funcionais como a mastigação, a deglutição e a fala podem ficar comprometidos, envolvendo efetivamente na rotina de desenvolvimento e desempenho do atleta. Neste mesmo estudo foi indicado a percepção de comprometimento (28% dos atletas) da qualidade de vida devido as condições bucais, incômodo psicológico (40% do total) e até mesmo percepção de queda do desempenho durante o esporte (18% dos 302 analisados). Muitos atletas chegam ao momento da competição alvo apresentando situações de urgências odontológicas. Este fato pode significar que a saúde bucal é uma área que talvez não esteja sendo devidamente considerada, quando se avalia a saúde dos atletas.

Ingrid Landmark competidora do Biathlon. Fonte:Norwegian Biathlon Association

Para tentar diluir os malefícios causados pelos nossos aliados repositores nutricionais, separei algumas dicas odontológicas que podem ajudar nossos amigos atletas durante o período de treinos e provas:

 – Assim que fizer uso de isotônicos e carboidratos em gel, imediatamente faça um bochecho vigoroso com água pura. O pH ácido presente nestes repositores não deve ficar em contato com o tecido bucal. Quanto melhor for a remoção, melhor será a preservação do esmalte dental e menor será sua deterioração.
– Procure por repositores menos cítricos. Sempre compre em casas especializadas. Se optar por manipulados prescritos pela nutricionista, pergunte sobre as opções de sabores e composições.
– Lembre-se de escovar os dentes e língua assim que possível após o fim da atividade física.
– Doenças gengivais aumentam o transito de toxinas do substrato de bactérias no fluxo sanguíneo, atrasando a recuperação muscular e aumentando o número de lesões. Portanto, faça visitas periódicas ao seu dentista e mantenha a higiene bucal em dia.  Faça uso de creme dental fluoretado, fio/fita dental e enxaguatório bucal recomendado pelo profissional de sua confiança.
– Beba água alcalina.

Estes são apenas uma parte dos dados que evidenciam que a Odontologia deve estar presente na equipe multidisciplinar de um atleta de alto rendimento, envolvendo todas as faixas etárias, da criança ao idoso. Ainda que seja surpreendente, os altos índices de problemas bucais em atletas de elite e amadores de performance, poderiam ser evitados com a associação de cuidados básicos e acompanhamento odontológico.
Quando você iria imaginar que aquele repositor energético gostoso, com sabor de frutas cítricas, poderia tirar o pódio de um campeão? Pois é.… no mundo dos troféus, os pequenos detalhes fazem a diferença.

 

Referências:

  1. Martinez AC, Alvarez-Mon M. O sistema imunológico (I): Conceitos gerais, adaptação ao exercício físico e
    implicações clínicas. Rev Bras Med Esporte. 1995;(3):120-5.
  2. Mcgovern LA, Spolarich AE, Keim R. A survey of attitudes, behaviors, and needs of team dentists. General
    Dentistry. 2015;63(6):61-66.
  3. Needleman I, et al. Oral health and elite sport performance. British Journal of Sports Medicine.
    2015;49(1):3-6
  4. Needleman I, et al. Oral health and impact on performance of athletes participating in the London 2012
    Olympic Games: a cross-sectional study. British Journal of Sports Medicine. 2013;47(16):1054-1058.
  5. Segura R, Javierre C, Ventura JL, Lizarraga MA, Campos B, Garrido E. A new approach to the assessment of
    anaerobic metabolism: measurement of lactate in saliva. Br J Sports Med. 1996;30(4):305-9

Dr. Gustavo Ribas

Triatleta amador, já participou de provas de todas as distâncias desde Short triathlon até Ironman.

Cirurgião dentista com pós-graduação em Prótese Dentária, com atuação em reabilitação oral em fase cirúrgica e protética.

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