• O controle da carga de treinamento (workload) tem sido importante fator de prevenção de lesões
• Estudos demonstram que treinar demais ou de menos pode gerar lesões em atletas
• Tanto atletas profissionais como amadores podem se beneficiar controlando sua carga de trabalho/treinamentos

 

Introdução

Todo atleta, seja amador ou profissional, já esteve algum período sem treinar devido à alguma lesão ou dor. Lesão é definida como qualquer queixa que impede o atleta de realizar suas atividades normais (treinos, jogos, competições), com base nisto, muito se tem pesquisado sobre medidas de prevenção de lesão no esporte.

 

Carga de treino

Escala de Borg
Fonte: Cavalcante et al. (2008)

Já há na literatura diversos exercícios que podem ser utilizados na prevenção de lesões, no entanto, um tema vem ganhando destaque, o controle da carga de treino ou workload. A carga de treino pode ser caracterizada como interna ou externa. A carga interna seria aquela ligada à fatores biológicos (fisiológicos e psicológicos) relacionados ao treinamento como: frequência cardíaca, concentração dos níveis de lactato, da proteína CK e o RPE (rated perceived effort – nível de esforço percebido). Uma das formas de se avaliar o RPE após uma atividade é através da escala de Borg, que consiste em uma escala numérica onde o valor 0 (zero) seria nenhum esforço percebido e 10 (dez) esforço máximo. Já a carga externa seria a medida de todo o “trabalho” realizado pelo atleta no treino, entre elas: distância percorrida, velocidade e aceleração, parâmetros de alguns aparelhos como GPSs e acelerômetros*. Para uma melhor visão e avaliação do atleta e de sua carga de trabalho é importante a integração entre as cargas internas e externas.

*Tanto GPSs como os acelerômetros são utilizados para calcular dados como distancia e velocidade, eles diferem em como adquirir esses dados. O GPS utiliza os satélites e o acelerômetro utiliza sensores. Já há no mercado aparelhos que possuem os dois sistemas integrados.

Smartwatch e relógios com GPS
Fonte: https://www.techradar.com/news/best-smartwatch-the-top-smartwatches-you-can-buy-in-india

Hoje em dia existem vários aparelhos que podem ajudar na medida de dados internos e externos do treinamento, de relógios de pulso, pequenos sensores colocados na roupa, passando por celulares modernos. É a chamada wearable technology. Com ela pode-se medir a distancia e velocidade percorrida em uma corrida (dados externos) e ainda a frequência cardíaca ou o nível de esforço durante o treino (dados internos).

Monitoramento da carga de treino

Segundo Bourdon et al., que realizaram um consenso sobre o monitoramento da carga de treinos em atletas, a razão da carga de trabalho aguda sobre crônica (razão A/C) (do inglês acute chronic worload ratio) é uma medida matemática que pode ser usada no controle da carga de treinos e consequentemente na prevenção de lesões. A carga de trabalho aguda é definida como a carga de trabalho da semana atual. Já a carga de trabalho crónica refere-se ao que foi treinado nas 4 semanas anteriores. Os autores sugerem que deve haver um equilíbrio entres as 2 cargas de treino.

Uniforme com captadores de dados.
Fonte:https://www.fastcompany.com/3032730/columbias-high-tech-advantage-in-its-world-cup-match-against-brazil

 

Muito treino crônico associado a pouco treino agudo aumenta o risco de lesões musculoesqueléticas, e pouco treino crónico com um súbito aumento de carga também aumenta o risco de lesões musculoesqueléticas. O mesmo autor sugere que os valores de relação entre carga de trabalho aguda e crônica sejam entre 0,8-1,3 (sweet spot).

Gráfico A/C workload
Fonte: Bourdon et al. (2017)

Exemplo:
Um corredor de rua convencional com carga de treino aguda elevada
• Carga de trabalho crônica (mês anterior) = 15km/semana (5km 3x por semana)
• Carga de trabalho aguda 1a semana do mês seguinte = 15km (os três treinos de 5 km) + uma prova de meia maratona (21km), totalizando 36km.
• A/C workload ratio = 36/15 = 2.4 (normal – 0.8-1.3)

Com esse exemplo vemos que o treino agudo superou mais que 2x o treino habitual do atleta e isso pode gerar lesões. Um aumento seguro da distância percorrida segundo autores seria de 10%. Vale lembrar que nem todos os atletas que realizarem aumentos súbitos da carga de treinos aguda ou crônica vão ter lesão, mas com certeza aumentará o risco quando comparados com atletas que seguem treinos progressivos e controlados.

Atletas amadores ou que não possuem recursos como GPS ou acelerômetros, podem utilizar de outras formas de monitoramento da carga interna e externa nos seus treinamentos. Questionários de bem-estar e/ou a Escala de Borg estão disponíveis na internet e podem ser medidas válidas e confiáveis de medir a carga interna. A medida da distancia percorrida ou a duração do treino são medidas de carga externa. Com esses dados (interno x externo) obtém-se valores numéricos que podem ser controlados semanalmente, mensalmente e assim por diante.

 

Conclusão

A área de saúde não é como a matemática, ou seja, não é uma ciência exata onde as fórmulas e as regras imperam, porém, adotar medidas preventivas, como o cálculo do A/C workload e associar a isso exercícios preventivos, podem gerar benefícios aos atletas.

Logo, a mensagem que deve ficar é que o treino em excesso ou em falta pode ser um fator de risco para lesões. O ideal é encontrar o ponto óptimo de treino, o ”sweet spot”. Treinos progressivos, sem aumentos excessivos de carga em curto espaço de tempo, associado a um bom descanso e boa alimentação, essa parece ser a fórmula mágica para se evitar problemas futuros. Tim Gabbett, um dos maiores estudiosos no assunto, publicou um artigo cujo titulo é uma reflexão a todos atletas e profissionais da saúde: “The training injury prevention paradox: Should Athletes be Training Smarter or Harder?” ( “O paradoxo da prevenção de lesões nos treinos: Os atletas devem treinar de forma mais inteligente ou com mais intensidade?”, em tradução livre.)

 

 

Referências:

1 – Bourdon, P. C.; Cardinale, M.; Murray, A. et al. Monitoring Athlete Training Loads: Consensus Statement. International Journal of Sports Physiology and Performance, v. 12. 2017
2 – Blanch P.; Gabbet, T. Has the athlete trained enough to return to play safely? The acute:chronic workload ratio permits clinicians to quantify a players risk of subsequent injury. British Journal of Sports Medicine. 2015
3 – Bowen, L.; Gorss, A. S.; Gimpel, M.; Li, F. Accumulated workloads and he acute:chronic workload ratio relate to injury risk in elite youth football players. British Journal of Sports Medicine. 2016
4 – Gabbett, T. The training injury prevention Paradox: Should Athletes be training smarter or harder? British Journal of Sports Medicine. 2016
5 – Martins, R.; Assunpção, Ms.; Schivinski, C. Percepção de Esforço e Dispneia em pediatria: Revisão das Escalas de Avaliação. Medicina (Ribeirão Preto). 2014.

Ft. Rafael Suassuna

Corredor de rua e praticante de artes marciais.

Fisioterapeuta, especialista em Fisioterapia Esportiva.
Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente.
Trabalha junto à equipe do FC Lokomotiv Moscow, em Moscou, Rússia.

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